Exilados – Stitium I

Quando Salmoela olhou para cima, pôde ver o relógio da Torre marcar a hora combinada. Apressou rapidamente o passo em direção à Chapell dos vagabundos e prostitutas. Um lugar deveras decadente, mesmo para ela.

A noite dava-lhe cobertura, escondendo seus rastros, encobrindo-a gentilmente. Campbell parecia estar ali a horas. Suas roupas encharcadas com a garoa fina que caia sobre ele, mesmo abrigado sob a marquise da velha casa. “Porque não esperou lá dentro?”. “Tu sabes que não gosto de entrar neste lugar sozinho, o ambiente ainda me incomoda”. “Mesmo depois de tanto tempo?”. “Sim”.

Era uma situação um tanto engraçada aquela, Salmoela sempre viu Campbell como um exemplo de frieza incondicional. Embora mais jovem que ela própria, ele parecia ter herdado a postura de sua vida anterior, o que o tornava uma figura taciturna e irritantemente calma. Mais lá estavam eles em frente a velha capela naquela noite úmida. E Campbell não parecia nem um pouco à vontade. “Não deixe olhem dentro de ti, ou estaremos perdidos para sempre”.

O murmurinho chamou a atenção de um dos “castrati” que abriu a velha porta com certo cuidado para evitar que as dobradiças, já frouxas, soltassem de uma vez. Sem dizer uma única palavra, o castrati nos guiou tranqüilamente pelos cômodos até uma sala que parecia ser o centro do lugar. O pré-púbere fez um gesto para que sentassem à grande mesa, claramente montada para aquela ocasião.

Seguiram-se minutos que se transformaram em noites, até que o silêncio mórbido do aposento foi quebrado pelo som de passos vindos de um cômodo vizinho. Sem que se levantassem, Salmoela e Campbell acompanharam a entrada daquelas figuras exêntricas e arrogantes. À medida que tomavam seus lugares junto a mesa dos convidados, Salmoela pôde sentir o ar de superioridade que envolvia aquelas figuras insólitas, vestidas como sacerdotes da igreja cristã, numa paródia mal-feita e de péssimo gosto. Embora tentada a olhar dentro deles, sabia que qualquer movimento errado, poderia por a perder todo o caminho que enfrentaram para chegar até aqui. Conteve-se.

Eram em número de dois, como havia sido previamente combinado. Um homem e uma figura andrógina que ela rapidamente classificou como sendo a mulher. Como planejado.
Naquele instante, Salmoela olhou instintivamente para avaliar Campbell. Ele permanecia sentado, com o olhar fixo nas duas personas da Lancea Sancta do outro lado da mesa.

Com uma voz rouca, o homem dirige-se a eles num tom baixo, quase como um sussurro…

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